Era o ano de 1988 e eu estava deitado em minha cama, acabara de acordar e ainda era cedo para ir à escola católica, mas eu não queria saber, o importante era ver um de meus melhores amigos, aquele do qual eu sabia que poderia ser um amigo fiel, Matthew Sanders. Olhei o despertador que anunciava ser exatamente 06h10min da manhã, então eu sabia que ainda havia tempo, pois morava a apenas duas quadras da escola e mesmo assim meu pai, John Sullivan me levava até a escola, para garantir que nada de mal acontecesse.
Sentei-me por alguns segundos em minha cama, o olhar percorrendo todo o quarto, eu havia acabado de fazer sete anos e ainda contemplava a nova idade, levantei-me por fim, me arrumando rapidamente para poder ir para a escola. Desci as escadas bocejando brevemente, enquanto meu pai ligava o carro velho que tinha comprado há alguns meses, fui até a cozinha e olhei para minha mãe, que acabara de preencher minha lancheira com uns dois sanduíches, ela sabia que minha fome era voraz. Mamãe me levou até a porta e acenou para mim e para meu pai quando saímos da garagem, andando numa velocidade considerada lenta.
Ao chegar à escola, observei que todos estavam uniformizados de forma exemplar, com um terno de cor azul-marinho, uma gravata preta e no emblema da escola, a foto de Jesus Cristo, com os braços abertos e o sorriso estampado na face, enquanto embaixo estava bordado em cor dourada o nome da escola “College Catholic of Huntington Beach”. Eu me senti desajeitado em relação aos outros garotos, eu sabia que estava estranhamente arrumado, o meu terno não estava abotoado e a gravata estava meio folgada para meu pesco magro, meu pai falou por fim.
― James... Não quer entrar, se quiser eu o levo para casa.
― Tudo bem papai, eu só estava... Ah deixa quieto, até mais!
― Eu te amo.
― Ta.
Eu sabia que não conseguira falar eu te amo nem mesmo para meu pai, eu sabia que às vezes minha dureza, minha falta de inocência o deixava triste e eu não conseguia mudar, então simplesmente respondia com a maior ternura que eu conseguia.
Saí do carro e fechei a porta com uma leve dificuldade, carregando a lancheira na mão direita, enquanto procurava àquela pessoa que me fazia suportar tudo aquilo diariamente. Eu olhei atentamente procurando por Matthew, mas quando menos esperava.
― Buu! ― Um grito ecoando de trás de mim gritou, rindo e balançando meus ombros rapidamente.
― Hey cara, você me assustou!
― A intenção não era essa? ― Matthew sorriu e me fez sorrir, mesmo sem querer. Sua felicidade e o olhar confiante sempre me faziam sorrir e isso era um bom sinal.
Matthew era poucos meses mais novo que eu e mesmo assim, era mais alto e um pouco mais forte, ou gordo, eu não sabia distinguir. Nós entramos no colégio e corremos para nossa sala, esperando ter a sorte de o professor não ter adentrado ainda.
ㅤㅤㅤAo entrar, ofegantes, nos sentamos nos nossos lugares habituais, no fundo, eu do lado direito dele. Sorri para ele quando o professor começou a explicar uma matéria de Inglês, do qual eu não estava prestando atenção. Por fim, o Professor, que se chama Ben, ou Sr. Ben, perguntou, virando-se para mim.
― Sullivan, você sabe a resposta a esta questão?
― Hãmmm, Pão com geléia?
― Como é que é? ― Ele falou um pouco alto, pois todos em minha sala começaram a rir um tanto exageradamente alto.
― Eu não sei, talvez... Sua mãe é uma vadia? ― Eu falei, olhando-o com uma cara inocente que pouco convencia.
― Garoto... Com quem aprendeu isso?
― É... Bem... ― Eu olhei de canto para Matthew, ele estava com a expressão mais disfarçada do mundo, era hábito dele falar coisas desse gênero e me ensinar algumas coisas assim, mas mesmo assim eu não queria incriminar meu amigo. ― Não é da sua conta.
― Vá para a diretoria James Sullivan... AGORA! ― O professor cuspiu, soltando jorros de fúria por contas das provocações.
Eu permaneci parado, olhava para a cara do professor com uma tranqüilidade que não era esperada, sorri para ele enquanto seu rosto se avermelhava. Eu sabia que estava MUITO encrencado, então não faria diferença se eu o provocasse mais. Eu estava enganado.
― Você não me ouviu? Está surdo?
― Isso também não é da sua conta seu velho. Você acha que é alguém aqui, eu não irei respeitar você nunca, idiota. Seu filho da... ― Antes mesmo que eu falasse alguém tapara minha boca. Olhei de lado e vi que era ele, Matthew, provavelmente me segurando para não falar aquilo que não admitiam na escola... Palavrões. O professor me pegou pelo braço bufando, todos na sala estavam aquietados, agora aterrorizados com a cena que viram. Eu olhei novamente para Matthew com a cara temerosa e ele correspondeu, pois sabia que o que viria não era coisa boa. Matthew não podia fazer nada além de me olhar e mostrar que estava arrependido por ter me ensinado aquelas coisas.
Cheguei com o professor à diretoria, entrando com ele rapidamente e de um jeito brusco, que fez a diretora Perkins saltar elegantemente da cadeira em que estava sentada. O professor olhou-a, tentando manter a voz calma, mesmo que estava tremesse de fúria.
― Sra. Perkins, quero lhe informar que James Sullivan estava fazendo bagunça em minha sala... Bem, não era uma bagunça qualquer, ele simplesmente insultou-me de um jeito do qual desrespeitava a mim e aos alunos, bem... ― Ele falou num jorro de fúria, a voz tremida, enquanto a diretora lhe observava. Ao fim, ela falou com um tom analisador.
― Sr. Ben, creio que este tipo de coisa eu deva resolver com James e os pais dele, então, deixe-o aqui e terá a resposta quanto ao castigo desse garoto. ― Ela disse em tom severo, mas calmo, enquanto me olhava com os olhos por cima dos óculos em forma de lua.
O Sr. Ben me deixara ali com a diretora e saiu, sem falar mais nada. Eu fiquei olhando para a face da diretora, agora com o rosto inocente e temeroso, mesmo que por dentro eu não esteja sentindo absolutamente nada disso, ela disse após uns segundos olhando umas folhas.
― Bem, James. Creio que eu tenha de chamar seus pais, juntos para comparecerem aqui. Que acha?
Mesmo com o medo começando a penetrar em meu interior, falei em um tom que a provocava e também mostrava firmeza em relação ao que eu havia feito.
― Faça o que quiser não me importa.
― Veremos. ― A diretora falara enquanto pegava o telefone e discava um número que com certeza era o da minha casa, enquanto o telefone tocava e ela esperava, disse-me, ainda no tom severo. ― Vá para fora, espere sentado.
Eu dei de ombros, apenas assentindo com frieza, então saí, andando calmamente.
Uns poucos minutos se passaram e vi alguém vindo na minha direção, mesmo de longe pude perceber que era Matthew.
― Matt... É bem... ― Eu não sabia o que falar, estava errado, mas não queria dar o braço a torcer.
― Jimmy... Você sabe que está errado, esse tipo de coisa não é permitido aqui, você sabe. O que fazemos fora, o que eu faço fora, não deve ser repetido aqui dentro... Acho que você esta encrencado amigo. ― Matthew falou de um jeito fraco e bastante sério, depois parou e voltou a falar, colocando a mão no meu ombro. ― Espero que dê tudo certo, boa sorte. Preciso ir, até mais! ― Eu assenti com um olhar sério e temeroso. E ele saiu.
Após Matthew se retirar, olhei para o lado, estava um pouco desorientado e inquieto admito, até que vi no fim do corredor meus pais, andando de um jeito um pouco pesado, eu sabia que aqueles passos eram irritados e nervosos, então não provocaria mais. Mamãe me lançou um olhar bravo e me chamou enquanto abria a porta da sala, meu pai ficou quieto, mas a expressão em sua face era nervosa. Eles entraram.
Logo que entrei no encalço dos pais, vi três cadeiras certamente postas na frente da mesa, enquanto atrás estava a diretora, com os olhos analisadores nos meus pais, enfim, sentamos. Eu fiquei ouvindo a diretora e meus pais conversarem sobre minha situação, mal eu prestara atenção naquilo que falavam, apenas lembrava a letra de uma música e os toques de bateria, que eram rápidos e ágeis, meu sonho era ser um baterista, mas ao que me falava meus familiares, eu tinha aptidão para o piano, instrumento que eu tocava com êxito. Fiquei submerso em meus pensamentos até que uma frase saiu da boca da diretora, ecoando em meus ouvidos como um grito.
― Sinto lhes dizer, mas seu filho está sendo convidado a se retirar dessa instituição.
― VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO! ― Eu esperava essa frase vinda da boca da minha mãe e a olhei, com os olhos arregalados, assim como ela fizera ao ouvir aquele som, por fim eu percebi que aquela frase gritando saíra de minha boca e não da boca de minha mãe, o que me deixou surpreso.
― Sinto muito James, mas é a única solução para uma coisa dessas. ― A diretora me olhava com a expressão serena.
― Mas, mas... E meus amigos... E Matt. Não pode fazer isso, por favor. ― Eu implorava, sentindo algumas lágrimas frágeis sair de meus olhos, caindo por meu rosto, enquanto eu abaixava a cabeça.
― Sinto muito. ― A voz da diretora ainda serena.
Mamãe se levantou, indo até a porta, abrindo-a e saindo de um jeito brusco. Meu pai me ergueu com facilidade, mas sem nenhuma brutalidade, me levou para a porta em seu colo e por fim me levou para o carro. Dentro do carro, vários sons ecoando em minha cabeça, minha mãe gritava e choramingava, meu pai tentava acalmá-la, mas eu não prestava atenção, meus pensamentos estavam virados para meu melhor amigo, como iria sobreviver sem ele, sem as brincadeiras? Seria muito difícil, talvez impossível, mas não havia saída, eu acho.
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