Os meses se passaram muito rápido e eu não percebi o que acontecera em minha vida. Fui separado de minha família e meus amigos, afinal, minha expulsão da Huntington Beach High School fora um acontecimento que marcara todos. Colocar fogo na sala de aula fora algo que eu não esperava e que aconteceu por um incidente infeliz. Fui expulso e obrigado a ir para um reformatório, podendo voltar à minha casa apenas nos fins de semana.
As primeiras semanas na minha nova vida fora um pesadelo horrível, eu não tinha mais felicidade, não falava com ninguém, não dormia direito, era um zumbi por completo.
― Perdoe-me meu filho, é preciso. Você sabe que... que... - Minha mãe tentava se explicar enquanto chorava a meus pés. Eu a fitava com a expressão dura. Escutava tudo aquilo, mas meus pensamentos estavam em outros lugares, outros objetivos, em Matt, em Brian, em Lea e principalmente, em minha bateria. Eu estava proibido de tocar bateria ou fazer qualquer ação para me entreter por três meses e isso só ajudava a me deixar mais deprimido.
Eu estava com quinze anos e ainda estava no reformatório, sabia que ficaria até completar minha maioridade. Estava deitado na cama de cima em meu quarto, enquanto via Justin Meacham, meu novo amigo, arrumar o cabelo para o dia longo que teríamos. Eu estava com um novo corte, o cabelo crescido nos olhos e grande atrás, chegando a encostar-se aos ombros, lisos naturais e pretos. Meu olhar havia mudado, provavelmente pelo efeito do lápis preto que os deixava com a aparência morta. Estava acostumado com o dia duro e longo no reformatório, mantendo firmemente o pensamento nos finais de semana, do qual eu poderia reencontrar meus amigos, Lea, Zack e Matt; reencontrar minha família e principalmente, reencontrar aquilo do qual eu mais amava, minha bateria.
Sentei-me em uma das cadeiras na mesa do refeitório, junto com os meus amigos, Justin, Mark e London, ficamos conversando e comendo, falando sobre o que queria fazer quando chegasse o sábado. Fiquei calado por uns segundos, olhando por sobre o ombro de Mark, vendo o pátio vazio, imerso em pensamentos que vinham como imagens em minha cabeça. Fui retirado desses pensamentos por um grupo de garotos que se aproximaram, rodeando a mesa onde estávamos. Eles ficaram por um bom tempo nos observando, até que um garoto moreno, alto e um pouco forte se aproximou de mim e falou, em um tom de desdém.
― Como vai idiota?
Fiquei calado, olhando para Mark, que observava os garotos a minha frente, com os olhos semicerrados, vi também a expressão um tanto medrosa de London, olhando para os lados, por fim, vi Justin, que estava parado, sem expressões significativas na face. Olhei de novo para Mark, ouvindo novamente o garoto falar.
― É impossível crer que você conseguiu ficar por dois anos aqui sem nenhum arranhão, mas bem, o seu dia de sorte, ou azar, chegou. ― Ele se aproximou de meu rosto, senti a respiração ameaçadora vindo até mim, enquanto escutava ele falar em meu ouvido, ainda num tom de desdém. ― Você pode se levantar e se juntar a mim, virar meu aliado, abandonar esses idiotas, fracos e lesados para se juntar a mim, você sabe que teria grandes recompensas aqui se ficar do meu lado... Por outro lado, se você se rebelar, você sabe que...
Eu me ergui em um salto, me virando com certa pressa para olhar nos olhos de Luke, enquanto falava em tom ameaçador.
― O que eu sei? Que você e seus comparsas idiotas irão me dar uma surra se eu não me unir a vocês? Ou talvez vocês saiam chorando, pois não conseguiram se unir ao garoto mais estranho do reformatório... ― O observei com a face enfurecida, parando para respirar fundo e olhar com mais profundidade nos olhos de meu inimigo. Voltei a falar após alguns segundos, com um tom incrédulo. ― Eu realmente não acredito que você seja capaz de me atingir Luke, afinal, você é um imbecil lento e gordo. Você não passa de um idiota filho da puta, tenho certeza que sem seus “guarda-costas” você não é absolutamente nada. NADA! ― Parei e fiquei lhe observando, vendo sua boca tremer de raiva enquanto tentava manter a forma em minha frente.
Ele olhou-me de cima abaixo e deu um passo para trás, falando com uma voz suave só que ao mesmo tempo ameaçadora.
― Eu. Você. No pátio. Hoje. Na hora do intervalo. Só nós dois.
Assenti com a cabeça e peguei minha mochila, passando por entre os garotos que rodeavam a mim, senti meus amigos me seguindo logo atrás.
Ao sair do campo de visão das pessoas, senti Justin me puxar, me virando para ficar de frente com ele.
― Seu idiota, idiota... Como pôde, sabe que irá perder, você sabe disso e ainda assim desafiou-o.
― Cale a boca Justin, eu tenho um plano.
Corri para meu quarto, sendo seguido pelos três que tentava me alcançar. Chegando ao meu quarto, entrei com certa pressa, procurando em minha mala o objeto desejado. Após alguns segundos, retirei uma caixinha preta de dentro da mala, colocando-a na cama. Observei-há por uns instantes, sentindo meus olhos brilharem, pensando como era bom ter Matt como meu amigo.
― O que é isso? ― Perguntou London.
― É simplesmente minha salvação. Matt sabia que eu me meteria em encrenca uma hora ou outra, sabia que eu precisaria disso. ― Retirei o tampo da caixinha, tirando desta uma faca pequena e prateada, do qual reluzia na luz. Sorri para mim mesmo, pensando em Matt, então ouvi Justin falar, em tom de desaprovação.
― Você não pode fazer isso, será expulso... Do reformatório. ― Ele fez uma careta ao pronunciar a última palavra, mostrando como seria estranho ser expulso do inferno.
― Se eu tiver sorte, sim. ― Sorri maliciosamente.
Saímos do quarto e fomos para as duas aulas que teríamos antes do grande acontecimento. Foram as aulas mais rápidas de Gramática e Química que tive em todos os anos. Enfim, o sinal tocou e fomos lentamente até o pátio central, eu senti meus companheiros tensos atrás de mim, sabia que estavam preocupados, mas eu sabia também que tudo estava bem e nada de mal aconteceria.
Ficamos sentados em um banco, calados, apenas esperando o momento em que o reformatório pararia e veria a melhor e maior briga de todos os anos ali. Os minutos se passaram e Luke não aparecera, já estava pensando que ele não apareceria.
― Acho que ele está fugindo, e você Justin? ― Perguntei, olhando com um sorriso nos lábios para meu amigo do lado direito. Ele respondeu.
― Tenho certeza que não, olha lá.
Eu olhei para frente e vi Luke, com mais cinco garotos, o rodeando como seguranças que protegem seu presidente. Levantei-me e fui de encontro para com Luke, o olhando com um sorriso zombeteiro e uma expressão que não o levava a sério, o vendo despachar os capangas e ficar numa posição mais cuidadosa. Ficamos frente a frente, olhando um no olho do outro. Coloquei a mão no bolso onde estava minha arma de vitória e a segurei firme, esperando o momento certo para usá-la contra Luke.
Por fim, Luke se manifestou, erguendo os braços e me dando um grande empurrão, que me fez recuar por alguns passos, me dando mais espaço para realizar alguns movimentos precisos para atacá-lo. Luke correu em minha direção, com o braço erguido, então lançou seu punho contra meu rosto, foi neste momento que eu retirei do bolso a tal faca prateada, girando-a rapidamente nos dedos e a deixando numa posição de ataque, assim passando-a com força e agilidade por sobre a parte debaixo do braço de Luke, o cortando naquela região. O garoto se afastou sangrando.
Vi então seus capangas correndo em minha direção, com olhares compatíveis com os de cães famintos, vindo na maior velocidade que puderam, senti também três vultos passando por trás de mim e correndo na direção dos garotos, me protegendo do ataque destes. Era tudo tão rápido e eu estava paralisado ali, vendo a guerra que estava se formando. Justin estava sendo atacado por dois garotos, enquanto London atacava de um jeito brutal outro garoto que estava caído, por fim, vi Mark, lançando-se como um animal protegendo seu filhote, atacar um último garoto, lhe tirando sangue do nariz.
Novamente Luke me chamara à atenção, ele correu até a minha direção, me dando novamente a oportunidade de lhe ferir com a faca. E eu o fiz. Corri em sua direção, com a faca na mesma posição que antes, então logo nos aproximamos, e nisso senti um choque em meu rosto, me fazendo cair com brutalidade sobre o chão.
Já caído, senti minha mão se abrir e a faca ser retirada da mesma, fiquei ali no chão, olhando para o céu, meio atordoado pelo soco de Luke. Percebi que todos os outros que estavam envolvidos na briga pararam e olharam para um vulto preto atrás de mim. Este era muito alto, tinha talvez uns dois metros de altura, o que me deixou um pouco temeroso. Fui obrigado a me sentar para poder me recuperar do golpe sofrido e ouvi uma voz chamar meu nome, esta voz era conhecida por mim, era alguém que me fazia temer somente por ouvir seu nome.
― Sr. Sullivan, levante-se.
Fiquei paralisado de medo por alguns segundos, até que me ergui, meio zonzo, me virando para a estátua atrás de mim, o olhando com a expressão indecifrável.
― Quero todos vocês na minha sala, AGORA! ― O diretor Schneider cuspiu as palavras em meio à fúria de seus olhos.
Dentro da sala, fique sentado em uma das cadeiras, olhando para o diretor com o rosto sério e tenso, vendo também Luke, agora com a parte cortada do braço enfaixado, chorar de medo, diante de várias acusações feitas pelo diretor. Eu não entendia bem o que o diretor falava, mas algo em suas palavras me chamou a atenção, aquilo que poderia ser bom, ou não, para mim.
― Irei chamar o pai de todos vocês e juntos conversaremos sobre o incidente.
Logo após aquilo, fui para meu quarto junto de Justin, Mark e London. Fomos para nossos quartos e eu me deitei em minha cama, vendo Justin olhar no espelho enquanto chorava de arrependimento.
― Eu sou um idiota, por que fui me meter nessa, isso era entre você e o Luke, eu não... Eu sou um idiota, idiota. ― Ele falava com tanto ódio de si mesmo que fui obrigado a intervir, lhe dando um apoio moral.
― Você não é idiota Justin, eu agradeço muito a você por ter me ajudado, realmente, se não fosse vocês três, não sei o que seria de mim.
― Mas eu... ééé... Eu não devia, serei expulso de tudo que faço nos fins de semana, minha vida está acabada cara, entendeu a gravidade disso? ― Ele continuava a chorar diante do espelho.
― Ah cara, mas... Mas... É você está mesmo ferrado. ― Proclamei por fim.
Virei-me e fiquei quieto em minha cama, ouvindo o choramingo de Justin, até que ele se aquietou. Por fim adormeci.
Quando acordei, eram 08h30min da manhã, eu me sentei em minha cama e olhei para o nada, sabia que ali estava o dia do julgamento final. Saí de meu quarto totalmente desarrumado, andei por entre os corredores, sozinho, sem nada. Entrei na sala de Filosofia e me sentei na cadeira ao lado de Mark, que estava quieto e paralisado, observei que Justin, London, Luke e todos os outros garotos que eu não sabia o nome e estavam envolvidos na briga também tinham a mesma postura. A aula se começou e terminou, para nós. O diretor entrou na sala com certa calma no andar, então chamou com a voz firme e dura.
― Sr. Sullivan, Meacham, Sonny, Carlson, Kein, Ian, Listen, Orton, Brown e Ortiz. Venham comigo, por favor!
Todos nos levantamos na mesma hora e seguimos o diretor até sua sala, aonde encontramos nossos pais. O senhor Schneider chamou primeiro Kevin Listen e em poucos minutos ele saiu, chorando, com seus pais enfurecidos ao lado dele. Logo após foram Johnny Ian, James Orton, Caio Ortiz, Milton Brown, London Sonny, Mark Carlson e Justin Meacham. Todos eles ficaram menos de 5 minutos na sala com o diretor. Até que chegou a vez de Luke Kein. Ouvi vários gritos e xingamentos vindo dos pais do garoto, meus pais estavam calados, olhando um para o outro, pois não sabiam o que fazer. Ao fim da discussão com Luke, o diretor Schneider me chamou, com a voz dura e fria. Eu entrei.
Sentei-me na cadeira do meio, com meus pais ao lado. Então a minha sentença começou a ser ditada.
― Senhor e senhora Sullivan, sinto-lhes dizer que seu filho ontem se envolveu numa briga terrível que envolveu todos os garotos que estavam aqui. Seu filho cometeu infrações de nível gravíssimo, como a ação de cortar Luke Kein com uma faca que tinha. Outra infração foi o objeto que possuía, sendo este proibido pelo reformatório. ― Senti meus pais estremecerem em suas cadeiras, ouvindo aquilo que ouviam. O diretor continuou. ― Como esse tipo de infração as regras não pode ser tolerado, serei breve... Os nove garotos que passaram aqui foram expulsos, pois a regra é clara e não pode ter objeções, assim como não terá objeção com seu filho James Sullivan, assim eu sinto lhe dizer que seu filho está convidado a se retirar desse reformatório.
Minha mãe abaixou a cabeça e meu pai acenou positivamente também com a cabeça. Eu me encolhi em minha cadeira, mas meu pai me puxou pelo braço, me levantando a força. Saímos daquela sala sem dizer mais nada.
Fomos até meu quarto para recolher meus pertences, ainda em silêncio. Fomos bem rápidos e partimos para o carro, saindo dali para nunca mais voltar. Foi quando começaram a gritar, vieram também os xingamentos, os sinais de fúria partindo de minha mãe. Meu pai continuou em silêncio, até que ele perguntou em um tom sincero de calma.
― Jimmy, você decide o que quer fazer daqui para frente, não irei contradizer com sua decisão, você quer ir para outra escola?
― Pai... É, eu... Eu serei sincero, não. Sei que meu caminho não é este, meu sonho não está em escola nenhuma, eu não preciso disso aqui, então... Não, me desculpe.
Fiquei olhando meu pai com medo de sua reação, vendo também minha mãe, que agora se encolhia no banco. Meu pai ficou pensativo por uns minutos, até que, para minha surpresa, sorriu. Seu sorriso era um pouco forçado, mas ainda assim me fez acompanhar ele. Ele disse com um tom caloroso para mim.
― Meu filho, eu sempre soube que seu caminho não era este, mas era meu dever de pai te fazer seguir o caminho corretamente proposto a você. Eu segui que você quer seguir a música e concordo com você, siga o seu caminho. Já que a sua decisão é essa, não irei lhe matricular em mais nenhuma escola, somente se você me pedir, está certo?
― Obrigado pai. ― Disse em tom de desculpa.
Senti um alívio em meu corpo e então relaxei, sabia que agora curtiria a vida como deveria.
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